quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Porque será Nietzsche o pensador mais requisitado nos números especiais das revistas de filosofia de referencia dos últimos tempos? a sua suspeita sobre a crença nos valores modernos da sua época abriu pioneiramente caminho para a hipótese de um pensamento 'pós-moderno' só hoje possível de levar mais a sério?  

Nesse sentido a profunda influência-revisitação da sua obra por parte dos 'pós-estruturalistas' nos finais dos anos 60 do século passado (Foucault, Deleuze, Guatarri, Lyotard, Derrida, ...) foi certamente uma ajuda preciosa; mas já antes disso a sua 'filosofia fisiológica e terapêutica' tinha sido um preparar de caminho obrigatório para o nascimento-invenção da Psicanálise, uma profunda marca na sociologia da acção de Webber e na ontologia de Heidegger 

... uma herança de peso que só por si justificaria a recorrência do seu pensamento actual, mas, ainda mais importante que tudo isso, face à descrença hoje reinante nos grandes ídolos modernos da viragem do século XIX para XX (nacionalismos, democracia, ideologias igualitaristas, optimismo cientifico, racionalismo, ...),  seja a actualidade das suas 'considerações inactuais'


























Uma certa visão de sociedade – Observador




ORÇAMENTO DO ESTADO

Uma certa visão de sociedade – Observador - Rui Ramos



"Vale a pena gastar mais uns minutos com a entrevista de Pedro Nuno Santos ao Observador. Encurralado pelos jornalistas, o secretário de Estado esbracejou: o PS governa com o PCP e o BE, porque a “visão da sociedade” do PS está “próxima” da dos comunistas e bloquistas. Eis, à primeira vista, mais uma ocasião para as oposições impressionarem a classe média com a “radicalização” do PS. Mas o PS não é o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn. Aquilo que aproximou o PS do PCP e do BE não foi a convergência de “visões da sociedade”: foi a derrota eleitoral, que deixou António Costa sem outra saída: ou aceitava a velha oferta comunista da “maioria de esquerda”, ou encerrava o dossier da sua carreira política. É curioso: Pedro Nuno Santos preferiu criar um equívoco acerca da boa-fé do PS como partido democrático e europeísta, a reconhecer o tremendo fracasso político que explica esta maioria. Os oligarcas não levam a sério a ideologia, mas levam a sério a aparência de poder.
António Costa e a sua maioria adoptaram a mais fácil de todas as soluções políticas: governar com uma parte da sociedade — os dependentes do Estado –, contra a outra parte. Para os clientes do poder, há “devolução de rendimentos”; para os outros, há impostos e serviços públicos descurados. Ao contrário do que se diz, o quadro europeu não limita este projecto. Pelo contrário, torna-o possível: com uma economia estagnada, uma dívida enorme, e uma coligação com partidos hostis ao investimento privado, é só graças à garantia da Comissão Europeia e do BCE que continua a haver financiamento externo. Ora, o que exigem as autoridades europeias? Um certo valor do défice, deixando a cada parlamento nacional o modo de o alcançar. Se a economia diverge das médias europeias, já não é da conta de Draghi ou de Juncker. A famosa má governação da zona euro, que ignora a economia, favorece este governo e esta maioria: permite-lhes, sem reformas, continuar a explorar o que, de facto, é um mecanismo de transferências."

sábado, 23 de março de 2013

Uma vergonha nacional - PÚBLICO






Sócrates volta; e volta a convite da RTP (uma empresa pública em que o sr. Relvas manda) para uma entrevista em que tentará justificar o seu Governo e para um programa semanal de 25 minutos que se destina a reabilitar politicamente a sua pessoa e a fazer dele um candidato plausível a secretário-geral do PS ou talvez mesmo à Presidência da República. Estas fantasias não interessam muito, excepto para confirmar o narcisismo da criatura e a sua obsessão com os media. Com tudo o que se passou desde que o dr. Cavaco o remeteu para mais verdes pastagens, Sócrates não percebeu ainda que a generalidade dos portugueses não lhe concede o favor da mais leve desculpa e o considera responsável pelo sofrimento e as misérias da crise. Até ao fim do dia 21 de Março já havia, por exemplo um abaixo-assinado na Internet com 86.000 assinaturas, pedindo que ele ficasse longe, muito longe, da nossa vista.
Mas, como é óbvio, o problema não se esgota aqui. No seu tempo, Sócrates foi, sem dúvida, o primeiro-ministro que mais se esforçou para administrar a informação e, pelo menos, para controlar (às vezes com manobras sem nome) a televisão, a rádio e os jornais. Não foi por acaso que o país chegou à undécima hora sem a menor ideia do poço para que tinha sido conscientemente atirado. Por omissão e por comissão, Sócrates sempre se mostrou um homem muito flexível com a verdade. E pior: um homem que vivia bem no mundo imaginário que vendia, sem o menor escrúpulo, aos portugueses. E, pior, nem o desastre o regenerou: não disse ele em Paris que a dívida se administrava, não se pagava, enquanto Portugal inteiro se espremia precisamente para a pagar?
Resta saber por que razão o sr. Relvas (que também não se distingue por uma particular credibilidade) resolveu oferecer ao sr. Sócrates no seu exílio "filosófico" um comício regular na RTP. Não compreendeu o sr. Relvas que atribuir um privilégio destes a um político desacreditado desacreditava simultaneamente a própria RTP e, de caminho, ofendia o país? Será que a manobra se destina só, no melhor estilo caciqueiro, a provocar uma pequena guerra civil no PS? Ou pensa o PSD que os dislates de Sócrates, tarde ou cedo, acabarão por o servir? Ou a ressurreição do indivíduo não passa de uma simples peça de um negócio maior e mais complexo, que por enquanto o país desconhece? Existem naturalmente dezenas de hipóteses. Mas, qualquer que ela seja, é, com certeza, uma vergonha nacional.