quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Uma certa visão de sociedade – Observador




ORÇAMENTO DO ESTADO

Uma certa visão de sociedade – Observador - Rui Ramos



"Vale a pena gastar mais uns minutos com a entrevista de Pedro Nuno Santos ao Observador. Encurralado pelos jornalistas, o secretário de Estado esbracejou: o PS governa com o PCP e o BE, porque a “visão da sociedade” do PS está “próxima” da dos comunistas e bloquistas. Eis, à primeira vista, mais uma ocasião para as oposições impressionarem a classe média com a “radicalização” do PS. Mas o PS não é o Partido Trabalhista de Jeremy Corbyn. Aquilo que aproximou o PS do PCP e do BE não foi a convergência de “visões da sociedade”: foi a derrota eleitoral, que deixou António Costa sem outra saída: ou aceitava a velha oferta comunista da “maioria de esquerda”, ou encerrava o dossier da sua carreira política. É curioso: Pedro Nuno Santos preferiu criar um equívoco acerca da boa-fé do PS como partido democrático e europeísta, a reconhecer o tremendo fracasso político que explica esta maioria. Os oligarcas não levam a sério a ideologia, mas levam a sério a aparência de poder.
António Costa e a sua maioria adoptaram a mais fácil de todas as soluções políticas: governar com uma parte da sociedade — os dependentes do Estado –, contra a outra parte. Para os clientes do poder, há “devolução de rendimentos”; para os outros, há impostos e serviços públicos descurados. Ao contrário do que se diz, o quadro europeu não limita este projecto. Pelo contrário, torna-o possível: com uma economia estagnada, uma dívida enorme, e uma coligação com partidos hostis ao investimento privado, é só graças à garantia da Comissão Europeia e do BCE que continua a haver financiamento externo. Ora, o que exigem as autoridades europeias? Um certo valor do défice, deixando a cada parlamento nacional o modo de o alcançar. Se a economia diverge das médias europeias, já não é da conta de Draghi ou de Juncker. A famosa má governação da zona euro, que ignora a economia, favorece este governo e esta maioria: permite-lhes, sem reformas, continuar a explorar o que, de facto, é um mecanismo de transferências."

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